Infecções bucomaxilofaciaisPublicado em 23 de outubro de 20266 min de leitura

Canino incluso: quando indicar exposição cirúrgica e tracionamento

O canino de leite continua firme na boca de um adolescente de 13 anos, ou de um adulto, e o canino permanente não aparece no lugar dele. Às vezes a família só percebe isso quando o ortodontista pede uma radiografia e encontra o dente posicionado dentro do osso, em uma direção diferente da esperada. Essa situação é chamada de canino incluso, ou retido, e é uma das inclusões dentárias mais frequentes depois dos terceiros molares.

Muitas vezes o tratamento combina ortodontia e cirurgia bucomaxilofacial. A decisão entre trazer o dente para a arcada, acompanhar ou removê-lo depende da posição do canino, da idade do paciente, do espaço disponível e da situação dos dentes vizinhos. A seguir, explicamos como essa avaliação é feita e que caminhos podem ser considerados.

O que significa um canino incluso

Um dente é considerado incluso quando a época habitual de erupção já passou e ele continua dentro do osso ou coberto pela gengiva, sem conseguir chegar à posição correta. No caso dos caninos superiores, a erupção costuma acontecer entre os 10 e os 13 anos, mas existe variação individual. Um pequeno atraso não significa automaticamente um problema.

O canino tem papel importante na mordida. Ele tem a raiz mais longa entre os dentes da frente, ajuda a guiar os movimentos laterais da mandíbula e contribui para o contorno do sorriso. Por isso, quando há condições favoráveis, os profissionais costumam discutir a possibilidade de posicioná-lo na arcada em vez de simplesmente removê-lo.

Por que o canino superior fica retido com frequência

O canino superior faz um trajeto longo dentro da maxila até chegar à boca. Ao longo desse percurso, pequenas alterações podem desviar sua direção. Entre os fatores associados, estão:

Em boa parte dos casos, o canino fica do lado do palato, ou seja, voltado para o céu da boca. Em outros, fica do lado vestibular, próximo ao lábio. Essa diferença interfere diretamente no acesso cirúrgico e no planejamento ortodôntico.

Sinais que levam à investigação

O canino incluso costuma não doer. Por isso, a suspeita geralmente surge por observação ou em exames de rotina. Alguns sinais merecem atenção: canino de leite que não amolece depois dos 13 ou 14 anos, diferença entre os lados da arcada, volume endurecido no palato ou acima dos dentes da frente e inclinação incomum dos incisivos laterais.

Quando o canino fica muito próximo das raízes dos dentes vizinhos, pode provocar reabsorção dessas raízes, um desgaste que muitas vezes não dá sintomas até estar avançado. Esse é um dos motivos pelos quais a investigação não deve ser adiada só porque o paciente não sente nada. Dor, inchaço ou secreção na região não são típicos e precisam de avaliação mais rápida, porque podem ter outras causas.

Exames de imagem e localização do dente

A radiografia panorâmica costuma ser o primeiro exame e mostra se o canino está presente e qual é sua inclinação aproximada. No entanto, ela não define com precisão se o dente está mais para o lado do palato ou do lábio, nem mostra bem a relação com as raízes vizinhas.

A tomografia computadorizada de feixe cônico permite analisar a posição tridimensional, a distância até a superfície, a condição da coroa e da raiz e eventuais áreas de reabsorção nos dentes próximos. Com essas informações, o cirurgião bucomaxilofacial e o ortodontista podem estimar se o tracionamento é viável e qual acesso será mais adequado. A indicação do exame é feita na consulta, a partir do que o exame clínico e a panorâmica mostrarem.

Como funciona a exposição cirúrgica com tracionamento

Quando a avaliação indica que o dente pode ser trazido para a arcada, normalmente o ortodontista primeiro prepara o espaço com o aparelho fixo. Em seguida, o cirurgião faz um acesso para expor a coroa do canino. Depois de remover o osso ou o tecido que recobre a coroa, ele cola um pequeno acessório, chamado botão ou bráquete, com um fio ou corrente ligado ao aparelho.

A gengiva pode ser reposicionada sobre o dente, na chamada técnica fechada, ou deixar parte da coroa visível, na técnica aberta. A escolha depende da posição do canino e da quantidade de gengiva disponível. Na maioria dos casos, o procedimento é feito em consultório com anestesia local, mas, em situações selecionadas, como pacientes muito jovens, ansiosos ou com inclusões complexas, pode-se discutir sedação ou ambiente hospitalar.

A partir daí, a força leve do aparelho conduz o dente aos poucos. Esse movimento costuma levar meses, e o ritmo varia de pessoa para pessoa. O resultado depende de fatores biológicos, da colaboração com a ortodontia e da posição inicial, por isso nenhum prazo deve ser tomado como certo antes do início.

Quando outras alternativas são discutidas

Nem todo canino incluso pode ou deve ser tracionado. Dentes em posição muito horizontal, muito altos na maxila, com anquilose (fusão com o osso), com alterações na raiz ou com risco elevado para os dentes vizinhos podem exigir outra estratégia. Nesses casos, a remoção cirúrgica do canino pode ser uma opção, seguida de planejamento ortodôntico ou de reabilitação do espaço em momento oportuno.

Em crianças, a remoção do canino de leite no momento certo pode, em alguns casos, favorecer a erupção espontânea do permanente. Em adultos sem sintomas e sem prejuízo aos dentes ao redor, o acompanhamento periódico com exames de imagem também pode ser discutido. Cada alternativa tem benefícios, limitações e riscos, que precisam ser explicados antes da decisão.

Recuperação e cuidados após o procedimento

Depois da exposição cirúrgica, é comum haver desconforto leve a moderado, pequeno inchaço e sensibilidade na gengiva por alguns dias. As orientações costumam incluir alimentação mais macia no início, higiene cuidadosa ao redor da área operada e uso apenas dos medicamentos prescritos. Bochechos fortes e mexer no fio com a língua ou os dedos devem ser evitados.

A biofotomodulação com laser de baixa intensidade pode ser avaliada como apoio no pós-operatório, para ajudar no conforto e na cicatrização dos tecidos. Retornos regulares permitem conferir a gengiva, a fixação do acessório e o início da movimentação. Se o botão se soltar, é preciso avisar o ortodontista ou o cirurgião, sem tentar recolocá-lo em casa.

Conclusão

Um canino que não nasceu na época esperada não exige pressa sem motivo, mas também não deve ser deixado de lado sem investigação. Localizar o dente com precisão, avaliar as raízes vizinhas e alinhar o planejamento entre ortodontia e cirurgia são os passos que definem a conduta mais adequada para cada pessoa.

No consultório no Centro de Sorocaba, o Dr. Guilherme Borges Manta, cirurgião-dentista especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial (CRO-SP 108737), formado pela FOP/UNICAMP e com residência hospitalar pelo SUS, analisa os exames junto com o ortodontista que acompanha o paciente. Essa conversa ajuda a entender a posição do canino e a comparar as opções possíveis antes de qualquer decisão.

Perguntas frequentes

Com que idade o canino superior deveria nascer?

Em geral, entre os 10 e os 13 anos, com variação individual. Se o canino de leite continua firme depois dos 13 ou 14 anos, ou se há diferença entre os lados da arcada, vale fazer uma avaliação com exame de imagem.

A radiografia panorâmica basta para planejar o tracionamento?

Ela costuma ser o primeiro exame, mas não mostra com precisão se o dente está do lado do palato ou do lábio, nem como ele se relaciona com as raízes vizinhas. Muitas vezes a tomografia de feixe cônico é indicada para completar o planejamento.

A cirurgia de exposição do canino é feita com anestesia geral?

Na maioria dos casos, é feita em consultório com anestesia local. Sedação ou ambiente hospitalar podem ser discutidos em situações selecionadas, como inclusões complexas, pacientes muito jovens ou muito ansiosos.

Todo canino incluso pode ser puxado para o lugar?

Não. Dentes muito horizontais, muito altos, fundidos ao osso ou com risco para os dentes vizinhos podem precisar de outra abordagem, como remoção e planejamento do espaço, ou apenas acompanhamento.

O que fazer se o botão colado no canino se soltar?

Avise o ortodontista ou o cirurgião para reavaliar a situação. Não tente recolocar ou ajustar o acessório em casa, porque isso pode machucar a gengiva ou atrapalhar o tracionamento.